A leucemia também atinge cães

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O tratamento é feito com quimioterapia e medicamentos de suporte para diminuir os efeitos colaterais

A leucemia é uma doença grave que atinge as células brancas (leucócitos) do sangue de pessoas e animais. A principal característica é o acúmulo de células jovens anormais na medula óssea. Da mesma forma que as crianças costumam ser mais afetadas pela doença, os cães jovens também apresentam maior prevalência do problema.

Existe, porém, um tipo de leucemia chamado mieloide, que acomete em sua maioria cães adultos e idosos. Pode atingir diferentes raças e não tem uma causa definida.

Estudos sugerem que uma possível mutação do DNA pode ser a origem do problema. Mas as evidências ainda estão em estudo. O diagnóstico é feito através do histórico do animal, associado ao exame físico criterioso e exames de sangue. Os sintomas mais comuns são febre, dor nas articulações, fraqueza, aumento dos linfonodos (gânglios), perda de peso, apatia.

O tratamento é feito com quimioterapia e medicamentos de suporte para diminuir os efeitos colaterais. O acompanhamento de um veterinário especialista em oncologia é fundamental diante da complexidade e gravidade da doença. Por se tratar de uma doença com sintomas inespecíficos, o dono pode demorar para perceber alterações no animal. Por isso muitas vezes o diagnóstico é tardio. Para evitar isso, é importante a realização de visitas semestrais ao veterinário e check-ups periódicos. Quanto mais cedo a doença for descoberta, maiores as chances de sucesso no tratamento.

Este iate pode custar mais de US$ 1 bilhão

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Luxo é a palavra que define o novo projeto do Italian Sea Group: um iate com 465 pés, batizado de Admiral X Force 145.

Ainda sem preço definido pela companhia, rumores indicam que a embarcação pode custar mais de 1 bilhão de dólares e o primeiro modelo só ficará pronto em meados de 2018.

O preço está atrelado ao conforto que o iate oferece: dois heliportos, duas piscinas, dois cinemas, sala de ginástica, jardim  zen, além de inúmeras suítes luxuosas.

Já a decoração é composta por dezenas de lustres de cristais e muito mármore. Veja nas imagens alguns detalhes do iate mais caro do mundo.

Contra crise, radiologista ganha vida num Tuk-Tuk em Lisboa

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Falta de emprego leva profissionais qualificados a buscar a sua renda na área do turismo

Ricardo Passos, 28 anos, é radiologista desde 2010. Contudo, no Hospital das Forças Armadas de Lisboa, onde trabalha, seu contrato é apenas de meio turno porque o hospital pertence ao Estado e não tem verba para pagar-lhe pelo dia inteiro de trabalho. Para complementar a sua renda, em maio, ele decidiu comprar um Tuk-Tuk, espécie de triciclo motorizado com cabine para transportar pessoas. Em países asiáticos, esses veículos funcionam como táxis, mas em Portugal ele tem servido para transportar os turistas, principalmente pela falta de acessibilidade das ruas portuguesas, que são estreitas e com subidas muito ingrimes.

O serviço tem muita procura, dado que o número de turistas aumenta a cada ano em Portugal. Em 2008, a receita com o turismo era de 7,4 milhões de euros (cerca de R$ 25,9 milhões) anuais e, em 2014, esse número subiu para 10,3 milhões de euros (cerca de R$ 36 milhões). “Em apenas um dia de trabalho pode-se fazer 400 euros (cerca de R$ 1,4 mil), se eu tivesse descoberto antes já estava trabalhando com isso há mais tempo”, brinca Ricardo.

Apesar de a Câmara Municipal de Lisboa já falar no regulamento da atividade, ainda não é preciso licença para circular em Lisboa, basta um alvará da Secretaria do Turismo de Portugal, que custa 140 euros anuais (cerca de R$ 490) e vale para um número ilimitado de veículos. Além disso, são necessários três seguros diferentes, que custam em torno de 700 euros por ano (cerca de R$ 2,4 mil), juntos: Responsabilidade Civil, Acidentes Pessoais e o seguro do próprio veículo. “O meu investimento total foi de sete mil euros, que eu estimo recuperar até o fim do mês de agosto”, assegura. No futuro, Passos quer deixar de conduzir e contratar alguns funcionários para fazer o trabalho para ele.

A quantidade de Tuk-Tuks aumentou consideravelmente a partir de junho de 2014, mas ainda assim, a pasta do Turismo não sabe precisar quantos veículos já circulam pelas ruas, visto que apenas um alvará pode ser usado para inúmeras unidades. Atualmente já existem, pelo menos, oito empresas oferecendo esse serviço. Nuno Silva, 44 anos, trabalha para a empresa CityTuk e conta que carrega, em média, 30 pessoas por dia, na alta temporada.

Formado em direito e com domínio de quatro línguas, ele decidiu atuar como motorista de Tuk-Tuk em função do boom turístico que o país vem apresentando. “Sou um curioso em história e geografia e, portanto, guio os turistas com informações sobre a cidade. Entre os clientes que mais procuram o nosso serviço estão os ingleses, franceses e holandeses. Gosto desse contato com as pessoas”, conta.

O serviço começa às 8h30 da manhã e só acaba quando não houver mais turistas a procura. Eles ficam estacionados nas principais praças do centro histórico da cidade de Lisboa. O valor dos passeios varia 30 euros (cerca de R$ 105) para 30 minutos até 110 euros (cerca de R$ 385) para o circuito de três horas.

Vida inteligente? Robô Curiosity acha “pirâmide” em Marte

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Uma nova imagem divulgada pela Nasa enviada pelo Robô Curiosity, que está em Marte desde 2012, inspirou teorias da conspiração, por mostrar uma pedra com a forma perfeita de uma pirâmide. Segundo alguns acreditam, a descoberta é prova da existência de vida no planeta vermelho.  As informações são do The Mirror.

A pirâmide tem o tamanho aproximado de um carro. Nas discussões da internet e sites de ufologia, a maioria das pessoas acredita que existe uma “coincidência” no formato. Entretanto, o canal no Youtube “ParanormalCrucible” afirma que o formato e design são perfeitos e que “é o resultado de vida inteligente e de um projeto e certamente não um truque de luz e sombra”.

Conheça a assustadora barata robótica financiada pelos EUA

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Ao estudar a forma como esses insetos se movem, além de seus tamanhos e formas, uma equipe da Universidade da Califórnia-Berkeley afirma ter construído um robô mais inteligente, sem qualquer novo programa ou sensor adicional.

O resultado final é um robô que pode parecer um inseto, mas é complemente artificial. Sua casca fina e redonda permite que ele consiga entrar em qualquer lugar e ultrapassar obstáculos sem dificuldades.

Não é a primeira vez que a humanidade cria um robô baseado em uma barata, mas a pesquisa é inédita por fazer com que máquinas que já existem fiquem mais inteligentes apenas mudando sua forma física.

A ideia é economizar milhões de dólares com pesquisa de equipamentos e software de inteligência artificial criados apenas para fazer com que robôs detectem e evitem obstáculos.

Chen Li, pesquisadora de Berkeley e líder do estudo, afirma: “A maioria dos estudos de robótica fazem o robô depender de sensores para escapar de obstáculos. Porém, quando o terreno fica muito bagunçado, especialmente quando a distância entre esses obstáculos fica menor do que o tamanho do robô, essa abordagem começa a gerar problemas”.

Para resolver essa questão, os pesquisadores gravaram com câmeras de alta-velocidade baratas que se moviam entre feixes verticais, semelhantes a um gramado.

Então, os cientistas colocaram nos insetos três diferentes cascas artificiais (um cone oval, um retângulo e um oval plano) e repetiram os testes. Quanto menos redondo o corpo ficava, mais dificuldade os insetos tinham para fazer o trajeto necessário.

Quando o teste foi feito no robô-barata, os resultados foram os mesmos. Nenhuma outra mudança foi feita no robô ou em seu software: ele ficou mais inteligente apenas com a mudança de forma.

“Talvez possam existir outras formas que sejam melhores para outros objetivos, como escalar ou pular obstáculos de outros tipos”, afirma o estudo.

“Nossos próximos passos devem ser estudar diferentes terrenos e formas animais para descobrir mais formas ‘terradinâmicas’ e até misturar formas. Esses novos conceitos irão permitir que robôs terrestres superem ambientes com muitos obstáculos equipados com o mínimo de sensores e controles.”

Vídeo:

Cientistas criam ‘nanorrobôs nadadores’ que transportam remédio pelo sangue

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Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Israel (Technion) criaram o que pode ser a primeira geração de “nanorrobôs nadadores”. As máquinas seriam capazes de nadar pela correntes sanguínea e carregar medicamentos a locais específicos do corpo. Feitos a partir de uma liga de polímero e de nanofios magnéticos, os “nanonadadores” (ou “nanoswimmers”, em inglês) têm a largura de uma fibra de seda.

Mas como, afinal, os robôs se locomovem? Tudo é feito às custas de um campo magnético externo, que “impulsiona a cauda” dos nanonadadores. O destino dos pequenos robôs pode ser traçado a partir da manipulação de um campo magnético sobre um determinado membro – o que pode possibilitar até mesmo a realização de cirurgias simples e não invasivas.

Os pesquisadores removeram a necessidade da instalação de motores minúsculos, de maneira que o transporte de medicamentos pelo sangue, dadas as dimensões dos nanorrobôs, se mostra possível. A aplicação dos nanonadadores por meio de seringas é ainda um sonho distante, mas passos largos no ramo da “medicina de nova geração” já começaram a ser dados.

Video:

Cientistas treinam abelhas para detectar drogas

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Insetos identificaram odores de heroína e cocaína; pesquisadores sugerem que animais poderiam ser usados em aeroportos.

Pesquisadores da Universidade de Colônia, na Alemanha, dizem ter treinado abelhas para que identificassem odores de heroína e cocaína.

Os cientistas descobriram que as abelhas respondiam de forma específica com a vibração de suas antenas à concentrações de drogas como heroína e cocaína.

Eles dizem que os insetos podem, eventualmente, substituir cães farejadores em aeroportos, já que seriam “menores, menos caros, mais fáceis e rápidos de serem treinados”.

“Testamos a capacidade de abelhas de aprender o aroma de heroína e as treinamos para que mostrassem uma resposta comportamental confiável na presença de um odor altamente diluído de heroína pura”, disse o estudo, divulgado na publicação científica online Plos.

Segundo os pesquisadores, não houve reação significativa das abelhas ao odor de maconha e anfetaminas.

As antenas de insetos são os órgãos mais sensíveis já descobertos para a detecção de moléculas voláteis, de acordo com o estudo, e seriam “mais sensíveis que o melhor dos sensores artificiais”.

Assim, estes animais poderiam ser usados como biossensores para tipos diferentes de odores e aplicados na detecção de doenças, contaminação alimentar, resíduos explosivos e drogas. Mas os especialistas advertiram que mais estudos são necessários.

O estudo diz também que a capacidade de percepção dos animais varia de acordo com a espécie. Baratas, por exemplo, reagiram à presença de anfetaminas e cafeína.

Desta maneira, a pesquisa sugere uma “plataforma de detecção de drogas baseadas em insetos” com o uso de diferentes espécies.

Dá para fingir ser louco?

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Seja para fugir da prisão ou para conseguir uma receita médica controlada, tem muita gente por aí tentando se passar por maluco. Mal sabem eles que teriam de ter os talentos dramáticos de um Al Pacino com uma direção de Hitchcock. Duvida? Nós explicamos aqui.

Por décadas o mafioso Vincent Gigante andou pelas ruas de Manhattan não em ternos italianos, mas de pijama ou roupão de banho. Era conhecido em Greenwich Village não por liderar os Genovese, uma das cinco famílias mafiosas de Nova York, mas por babar e murmurar de um lado para o outro. Seu disfarce começou em 1969, aos 40 anos, para escapar de uma acusação de propina. Deu certo, e assim continuou. Bastava que o FBI esquentasse a perseguição a mafiosos para que Gigante desse entrada numa clínica psiquiátrica. Certo dia, agentes o viram pelado na chuva, segurando um guarda-chuva. Noutro, o viram cair na calçada e começar a rezar. Segundo seu psiquiatra, Stanley Portnow, 34 outros médicos diagnosticaram esquizofrenia. Nos bastidores, o falso louco crescia na hierarquia dos Genovese. Em 1981 se tornou chefão. Na metade da década, subiu à chefia da Comissão, o comitê interfamílias da máfia. Até que, em 1990, foi preso, acusado de extorsão e homicídio. Novamente, a defesa alegou que Gigante não tinha condições mentais para ser julgado. Em perícias, conseguiu engambelar um renomado psiquiatra de Harvard, cinco ex-presidentes da Academia Americana de Psiquiatria e Direito e o homem que inventou um teste padrão para reconhecer simulações de transtornos mentais. A acusação provavelmente não iria para frente se alguns mafiosos não tivessem começado a colaborar com a polícia. De fato, seis gângsters descreveram o seu papel na família Genovese. Gigante acabou condenado por extorsão, mas não por homicídio, e foi sentenciado a 12 anos. Somente em 2003 a mentira foi revelada. Acusado de obstruir a justiça, Gigante calmamente admitiu tudo – em troca de outra sentença menor.

Sim, fazer de conta que vai mal da cabeça pode trazer vantagens. Pode render aposentadoria por invalidez ou auxílio-doença. Pode dar acesso a remédios controlados que ajudam a ser mais produtivo nos estudos e no trabalho. Ou pode evitar o julgamento por um crime, como no caso de Gigante. O princípio no caso penal é o seguinte: quando uma doença mental deixa a pessoa incapaz de controlar sua ação, ela se torna aquilo que o juridiquês chama de “inimputável”. “Para a lei, não importa que doença a pessoa tenha, mas o impacto dela no dia a dia”, diz Daniel Barros, professor de psiquiatria forense do Hospital das Clínicas da USP. Mesmo que um sujeito tenha esquizofrenia grave, se ele roubar dinheiro para comprar uma blusa, não terá feito isso por causa do transtorno, mas porque queria comprar a blusa. “Ele só deixaria de responder pelo crime se a doença torná-lo incapaz de entender o que está fazendo ou de se controlar”, diz Barros. Assim, ele deixa de ter culpa pelo crime. A alegação de inimputabilidade é rara: segundo um estudo da Universidade da Pensilvânia, apenas 0,9% dos processos criminais parte para essa estratégia. Nesses casos, o acusado é internado em um hospital psiquiátrico.

O mafioso Gigante é uma prova de que não é impossível enganar um psiquiatra. Afinal, diferentemente de um câncer ou de um osso quebrado, um transtorno mental é diagnosticado a partir do comportamento e dos relatos do paciente, e não por um exame físico. Não existe raio-X de esquizofrenia. Mas, na prática, para enganar um psiquiatra é preciso mais do que bons talentos dramáticos. É necessária maestria como diretor, roteirista e ator.

Para desmascarar mentirosos, psiquiatras têm uma ferramenta principal: a boa e velha conversa. Eles partem para perguntas abertas. Assim, o paciente precisa relatar os sintomas com suas próprias palavras e experiências – de nada adianta ler os sintomas no Google. Na hora de detalhar a entrevista, o psiquiatra pode misturar perguntas relacionadas a transtornos opostos ou sintomas completamente improváveis (por exemplo, se vê palavras escritas surgirem quando pessoas falam). Com uma entrevista longa, é apenas uma questão de tempo para que ele se contradiga ou mostre um comportamento incoerente com as descrições. “Você pode estudar as cores e técnicas de Van Gogh”, diz Barros. “Mas quando você faz um quadro, não sai um Van Gogh.”

Agora, o roteiro. Digamos que a pessoa tenha forjado um quadro de esquizofrenia a partir do que ele viu em filmes. O problema é que esse transtorno é bem diferente do que mostram os filmes. Tem sintomas “positivos” – alterações das funções normais, como alucinações e delírios – e sintomas “negativos” – diminuição das funções normais, como falta de motivação, de emoções e isolamento social. Falsários tendem a ignorar os sintomas negativos, que são menos conhecidos. E, segundo o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp, o que confirma mesmo o diagnóstico de esquizofrenia não são vozes imaginárias ou pensamentos estranhos, mas a forma como a pessoa se vincula afetivamente com os outros. “Para conseguir imitar isso, o sujeito teria de ser digno de um Oscar.”

Na hora de simular sintomas como alucinações, surgem os problemas de atuação. Tal como o mau ator num dramalhão barato, ele acha que quanto mais bizarro o comportamento, mais convincente será. Esforça-se para parecer louco e tomar o controle da entrevista, enquanto pacientes genuínos geralmente relutam em discutir seus sintomas, afirma Phillip Resnik, professor de psiquiatria da Universidade de Cleveland. Digamos que um falsário relate ter ouvido vozes. Como eram essas vozes? Em casos psicóticos legítimos, elas são bem claras – dá até para saber se são masculinas ou femininas. Ou seja, não existe essa de “não sei” quando o psiquiatra fizer perguntas. De onde vieram? Em 88% dos casos, parecem vir de fora da cabeça, como de objetos, da parede ou do ar. O que elas dizem? Embora seja comum que a voz dê instruções, raramente elas se limitam a comandos – e normalmente o paciente evita obedecê-las, principalmente se isso trouxer perigo. Então, se vozes de dentro da cabeça tiverem mandado um acusado ir até um banco e roubar dinheiro, dificilmente um psiquiatra acreditará nelas.

Junto às alucinações auditivas podem surgir as visuais. Mas nada de flashes, sombras, objetos voadores ou distorções de cores e tamanhos, comuns em alucinações causadas por LSD. Elas são em geral imagens de pessoas em escala normal e em cores. E aí está mais um erro comum de falsários. “Um réu acusado de roubo de banco disse calmamente ter visto um gigante de vermelho de dez metros derrubando uma parede durante a entrevista. Quando se perguntava a ele perguntas detalhadas, frequentemente dizia `Eu não sei¿. No final das contas, admitiu que mentia”, escreve Resnik.

Para fechar o prêmio de mau ator para o falsário, a psicose não se limita ao que a pessoa pensa. Ela influi em como a pessoa pensa. Uma pessoa em estado psicótico muda abruptamente de assunto, inventa termos, faz uma salada de palavras. Ninguém vai enganar um psiquiatra dizendo de forma clara que está confuso. E para saber as características de confusão mental na esquizofrenia e reproduzi-las é necessário mais um Oscar. Ou então passar três décadas fingindo loucura de manhã à noite. Não é qualquer um que consegue ser Vincent Gigante.

ESQUIZOFRENIA
POR QUE TENTAM FINGIR: Inimputabilidade criminal.

SINTOMAS MAIS COMUNS: Alucinações, delírios, apatia, achatamento de emoções, isolamento social.

TROPEÇOS DE QUEM FINGE: Achar que quanto mais bizarro, mais convincente será, e acabar inventando alucinações e delírios muito diferentes dos legítimos. Ignorar sintomas menos cinematográficos, como a apatia e o achatamento de emoções.

DEPRESSÃO
POR QUE TENTAM FINGIR: Aposentadoria por invalidez, auxílio-doença.

SINTOMAS MAIS COMUNS: Perda de prazer nas atividades, sensação de inutilidade, insônia, ideias de morte ou suicídio.

TROPEÇOS DE QUEM FINGE: Dizer que está triste, mas não aparentar a tristeza, ou exagerar num grau que não teria permitido sequer ir até a perícia. Dizer que chora, mas não saber responder direito em quais situações.

ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO
POR QUE TENTAM FINGIR: Aposentadoria por invalidez, auxílio-doença, indenizações.

SINTOMAS MAIS COMUNS: Imagens de um trauma voltam à mente, o que dispara pânico.

TROPEÇOS DE QUEM FINGE: Inventar um trauma trivial demais para causar o transtorno. Não conseguir simular a reação física (o suor, os tremores e a aceleração cardíaca) que vêm com a lembrança.

DÉFICIT DE ATENÇÃO
POR QUE TENTAM FINGIR: Conseguir medicamentos que aumentam a concentração.

SINTOMAS MAIS COMUNS: Comportamento desatento, desconcentrado, pouco persistente, desorganizado, esquecido.

TROPEÇOS DE QUEM FINGE: O psiquiatra pode não receitar estimulantes na primeira consulta e tentar outros tratamentos antes.


PARA SABER MAIS

O Que É Psiquiatria Forense
Daniel Martins de Barros, Editora Brasiliense, 2008.

Fontes: Jair Borges Barbosa Neto e Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatras da Unifesp; Michael Sharpe, psiquiatra da Universidade de Edimburgo; Daniel Barros, psiquiatra forense do HC-FMUSP.

O que faz de você você?

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Engraçado, tímido, agressivo, egoísta, inteligente. Um caldeirão de influências forma a sua personalidade. Descubra o que faz com que você seja do jeito que é – e veja o que ainda consegue mudar

As irmãs iranianas Laleh e Ladan Bijani tinham exatamente os mesmos genes e viveram juntas todas as experiências da vida. Nascidas gêmeas idênticas e siamesas, ligadas pela cabeça, permaneceram 29 anos grudadas. Morreram em 2003, na cirurgia que as separou. Mesmo sabendo dos riscos da operação, elas toparam o desafio só pela oportunidade de viver separadas. ?Somos dois indivíduos completamente distintos que estão grudados um no outro?, disse Ladan em uma entrevista antes da cirurgia. ?Temos visões de mundo diferentes, estilos de vida diferentes e pensamos de modo muito diferente sobre os assuntos.? Laleh queria se mudar para Teerã e se tornar jornalista, enquanto Ladan planejava ficar em sua cidade natal e praticar advocacia. Uma era mais graciosa; a outra, mais fechada.

A individualidade humana é um mistério: somos todos diferentes uns dos outros, e isso acontece até mesmo com gêmeas idênticas como Laleh e Ladan, que carregam o mesmo DNA e foram educadas do mesmo jeito. A ciência moderna tenta há séculos explicar a intrincada malha que forma o nosso comportamento. Nessa corrida, há filósofos, psicólogos, neurocientistas, geneticistas e até literatos. No livro Notas do Subterrâneo, o escritor russo Fedor Dostoiévski zomba de quem acredita que ?a ciência explicará ao homem que ele nunca teve vontade, nem caprichos e que não passa, em suma, de uma tecla de piano, de um pedal de órgão?.

Dostoiévski mostra que o nosso jeito de ser não é só uma questão de curiosidade pessoal. O que cientistas ou escritores estudam sobre a origem da personalidade geralmente cria novos modos de ver o mundo, códigos morais e sistemas políticos. No século 17, o filósofo inglês John Locke formulou a metáfora da tabula rasa, segundo a qual somos uma espécie de folha em branco que é preenchida no decorrer da vida. O princípio de Locke foi essencial para a criação de pilares da política moderna, como a Declaração dos Direitos Universais do Homem, de 1776, ou o socialismo. Afinal, se todos os homens nascem iguais, então merecem os mesmos direitos e oportunidades. No século 20, o líder comunista chinês Mao Tsé-tung, na tentativa de reformar radicalmente o homem chinês, cita a tábula rasa no seu Livro Vermelho, falando de folhas em que ?as personalidades mais novas e mais bonitas podem ser escritas?. Já a idéia oposta à tabula rasa, de que pessoas e etnias nascem mais dotadas que outras, fundamentou projetos de engenharia social e genocídios como o Holocausto judeu.

Nas últimas décadas, o debate ganhou o nome de nature x nurture: no primeiro time, está quem coloca na natureza a raiz da nossa personalidade; no segundo, quem acha que o ambiente é o grande definidor. Hoje, essa polêmica deu lugar a uma cooperação, com os dois lados trabalhando juntos para desvendar a individualidade. Dessa união, estão saindo muitas das respostas novas e mais precisas das principais questões sobre o comportamento humano.

A genética determina o comportamento?

Não. O nosso DNA possibilita e favorece determinados tipos de comportamento, mas não determina nada. ?Os genes não restringem a liberdade humana ? eles a possibilitam?, diz Matt Ridley, autor do livro O Que Nos Faz Humanos, em um artigo para a revista New Scientist. ?A genética não é um destino, não determina o que você vai ser. Ela oferece predisposições. Todos estão sujeitos a influências ambientais que podem, sim, mudar a expressão dos genes e fazer com que eles simplesmente não se manifestem?, diz André Ramos, diretor do Laboratório de Genética do Comportamento da Universidade Federal de Santa Catarina.

Traços de personalidade são idéias, conceitos culturais: dependem dos olhos de outros e da cultura de um lugar e de uma época para aparecerem e ganharem um nome. O que é inteligência, pedofilia, má-educação ou timidez no Brasil pode ganhar nomes bem diferentes no Japão, por exemplo. Por isso, não dá para encontrar a personalidade pura no DNA. Mas a nossa herança genética pode, sim, influenciar o funcionamento do corpo, que, numa cultura ou em outra, resulta em comportamentos diferentes.

Ao nascer, cada ser humano carrega uma composição de 30 mil a 35 mil genes, formações de DNA que ficam ali dentro dos nossos 23 pares de cromossomos. As principais descobertas dos geneticistas do comportamento relacionam os genes à regulação de mecanismos fisiológicos que mudam o comportamento, como impulsividade, vício de determinadas substâncias e memorização. Há indicações, por exemplo, de diferenças genéticas na regulação da dopamina, neurotransmissor relacionado à sensação de prazer. Em algumas pessoas, a cocaína provocaria uma descarga anormal de dopamina, causando vício. ?É provável que esse medidor químico sofra uma deficiência natural e, portanto, alguns indivíduos sejam mais suscetíveis a se viciar em cocaína?, dizem os pesquisadores Howard S. Friedman e Miriam W. Schustack, autores de Teorias da Personalidade.

Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria de Londres, divulgada no ano passado, mostra como o comportamento pode ser afetado por uma interação entre genes e ambiente. Ele teve acesso a um estudo que acompanha desde 1972 a saúde física e mental de mais de 1 000 pessoas desde o nascimento. Descobriu que homens maltratados na infância tinham uma probabilidade 10 vezes maior que os demais de cometer crimes violentos desde que, além de terem sofrido maus-tratos, possuíssem pequena atividade da enzima MAOA do cromossomo X, que permite níveis elevados de serotonina. No total, 85% dos homens maltratados na infância e cuja MAOA é pouco ativa exibiram comportamento violento ao longo da vida. Entre os que possuíam a forma muito ativa, os maus-tratos não aumentaram o comportamento violento.

Outro exemplo é o gene FOXP2, no cromossomo 7, isolado recentemente pelo Centro de Genética Humana da Fundação Wellcome, no Reino Unido. Mutações nesse gene causam deficiências específicas de linguagem ? ele parece ser necessário para o desenvolvimento da fala. ?Ele permite que a mente humana absorva, a partir das experiências vividas na 1ª infância, o aprendizado necessário para falar?, afirma Matt Ridley. Com problemas de fala, é mais fácil para a criança desenvolver traços como a timidez.

A composição genética tem ainda efeitos indiretos, que acabam influenciando até o comportamento dos pais. É que, por mais que digam o contrário, os pais variam a forma de tratamento conforme o filho. Crianças alegres, que sorriem e olham nos olhos dos pais, costumam deixá-los gratos e mais carinhosos. Segundo uma pesquisa de 1994 feita pela Universidade da Pensilvânia, alguns autistas ? que não costumam olhar nos olhos ou expressar emoções ? têm, por isso, pais indiferentes e um pouco frios. Outro exemplo é a beleza das crianças. Se a composição genética faz uma criança ser considerada bonita, ela terá mais chances de ser o centro da atenção dos pais. E isso influenciará sua personalidade.

Os pais influenciam a personalidade dos filhos?

Sim, mas a influência é imprevisível. Desde os primeiros estudos de Sigmund Freud, e até antes deles, os pais são tidos como os agentes mais importantes na criação de uma pessoa. São os primeiros a conter o que há de animal em nós, nos ensinando a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções da civilização. Com essa premissa, Freud foi, ao lado de Darwin, um dos grandes pensadores do século 19 a abalar a idéia de Deus, mostrando que as noções de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem ser a causa de vários dos nossos problemas. Do conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços de personalidade (como a timidez, a vergonha), recalques inconscientes e fraquezas que nos acompanham vida afora. Freud vai mais longe: para ele, o jeito com que meninos e meninas lidam com a figura do pai e da mãe é essencial para definir a sexualidade da pessoa.

Mas as idéias do austríaco fomentaram tantas generalizações grosseiras e técnicas furadas de educação (veja na página 54) que hoje, fora dos círculos de psicanalistas, estão cada vez mais desacreditadas ? e o pai da psicanálise é considerado mais um filósofo que propriamente um cientista. O que não quer dizer que ele deva ser descartado.

Até o ponto que a genética permite, um bebê recém-nascido é como um molde de argila flexível. O que ele aprender, ver, ouvir, sentir será armazenado no cérebro e irá compor a maneira como agirá no futuro. Ao nascer, vai demorar meses até conceber idéias básicas, como a de ser distinto das coisas ao redor. Aos poucos, porém, vai se dar conta de que consegue mover algumas dessas coisas ? seus braços e pernas ? e que outros seres fazem o mesmo. Assim, a partir do outro, o bebê começa a ter a noção de eu, de que é um indivíduo.

Conforme interage com os adultos, a criança se molda ao mundo em que nasceu. Se os adultos ao redor forem lobos ou cavalos, passará a vida toda uivando ou relinchando e bebendo água com a língua, como aconteceu como o ?Selvagem de Aveyron?, garoto encontrado na França em 1799 que viveu a infância isolado na floresta e por volta dos 12 anos trotava, farejando e se alimentado de raízes. Ou então as indianas Kamala e Amala, dos anos 20. Acolhidas por lobos quando recém-nascidas, elas andavam de quatro, tinham horror à luz e passavam a noite uivando.

Entre lobos ou humanos, a criança aprende o que pode ou não fazer. Percebe que, ao chorar mais alto, a mamadeira vem mais depressa. Portanto, vale a pena ser manhosa, pelo menos de vez em quando. Quando joga um objeto no chão, é repreendida pela mãe e ganha uma bela bronca. Também começa a diferenciar sentimentos: o que achava ser dor, começa a receber nomes diferentes como ?fome?, ?ciúme?, ?medo?. ?As sinapses cerebrais são construídas a partir das relações externas. Sem interação com o outro, não há personalidade?, afirma Benito Damasceno, neurologista e professor de neuropsicologia da Unicamp.

E os ?outros? mais importantes dos nossos primeiros anos são os pais. Com eles, exercitamos uma das nossas grandes capacidades inatas: a de imitar. Os pais servem de referência para estabelecermos padrões de sentimentos e atitudes ? o filho que imita o pai se barbeando também conhece com ele jeitos de se relacionar com as mulheres, modos de regular o tom de voz e até preferências intelectuais.

Prova disso é um estudo citado no livro Freaknomics, de Steven Levitt e Stephen Dubnere, realizado no ano de 1991 com 20 mil crianças americanas até a 5ª série. O estudo tentou relacionar o desempenho escolar das crianças com o perfil dos pais e a convivência de todos em casa. Descobriu que as boas notas não estão relacionadas àquilo que os pais fazem ? se mandam os filhos ler ou lêem para eles antes de dormir ?, mas ao que eles são: se têm o hábito de ler para si próprios, se têm livros em casa e se são bem instruídos.

?Nos primeiros anos, o filho se identifica com quem faz o papel de pais e passa muito tempo copiando suas ações?, diz Eloísa Lacerda, fonoaudióloga e psicanalista da PUC-SP especializada na 1ª infância. Talvez se explique assim o caso do filho que passa a infância apanhando e, quando adulto, vira um pai igualmente agressivo. A mesma teoria serviria também para explicar o contrário: o filho que, em alguns pontos, se torna o contrário dos pais. É que eles podem servir de referência de traços aos quais reagimos. Assim os psicólogos explicam a família do casal que passa as noites brigando e tem um filho do jeito oposto ? tranqüilo e pacificador.

O problema é que, se explicam muito bem a raiz das motivações de uma pessoa em particular, essas teorias não servem para montar leis gerais da natureza. Vale a regra do ?cada caso é um caso?, que nem sempre é comprovada por estatísticas. Além disso, o convívio com os pais é só uma etapa do desenvolvimento. Em casa, a criança cria ferramentas que poderá desenvolver ou não quando passar por outro desafio: a busca para ganhar destaque entre seus iguais.

As amizades influenciam?

Muito mais do que imaginamos. Em 1998, a psicóloga americana Judith Rich Harris causou uma revolução nas teorias da personalidade ao afirmar que o convívio com os pais é só um dos fatores que influenciam a personalidade dos filhos ? e um dos menos importantes. No livro Diga-me com Quem Anda…, ela fala que as relações horizontais dos 6 aos 16 anos ? da criança com seus pares, o grupo de amigos da escola ou da vizinhança ? são o grande definidor da personalidade adulta.

Para fundamentar o que diz, Judith Harris recorre aos 6 milhões de anos de evolução dos humanos. Durante esse tempo, os seres humanos que mais deixaram descendentes foram os que se acostumaram a andar em bando e conseguiram ter uma boa posição dentro dele. Quanto mais valiosos dentro do grupo, mais descendentes geravam. Do grupo dependia a sobrevivência e, depois da morte, a sobrevivência dos descendentes. Essa história evolutiva, para Judith Harris, resultou num cérebro sedento por relações gregárias e classificações que diferenciem um grupo de outro e os membros entre si.

Hoje, essa herança da seleção natural funciona assim: ao se identificar com um pessoal, a criança tende a agir conforme as regras internas daquelas pessoas, tentando encontrar um papel que lhe renda uma boa posição entre os membros. De certa maneira, estaria tentando realizar sua missão na Terra: ganhar a proteção do mesmo sexo, para não ser atacado, e atrair o oposto, para se reproduzir. ?A identificação com um grupo, e a aceitação ou rejeição por parte do grupo, é que deixam marcas permanentes na personalidade?, afirma Judith Harris. Para ela, é assim que o gordinho da turma vira o gordinho engraçado: ele usa o humor para conquistar atenção. Assim se explicaria também a garota mais bonita da sala que não se preocupa em desenvolver a inteligência ? a beleza já a destaca.

O principal exemplo usado pela psicóloga são os filhos de imigrantes. Apesar da língua, da religião e dos costumes que os pais tentam transmitir, a criança os ignora facilmente quando começa a ter contato com amigos do novo país. Aprende o idioma de uma hora para outra e, em poucos anos, se parece muito mais com os amigos que com os pais.

Outro exemplo é uma pesquisa com panelinhas de estudantes americanos por volta dos 12 anos. O psicólogo Thomas Kindermann descobriu que crianças de um mesmo grupo tinham notas e atitudes parecidas na escola. Se fizer parte de um grupo em que o desempenho escolar é importante, a criança se estimula a ter melhores notas. Se não conseguir, é provável que vá para outra panelinha, dos esportistas, por exemplo, que não consideram as notas uma coisa superlegal.

A teoria de Judith explicaria por que pais normais, que seguiram sempre as regras da boa educação, deparam com um filho criminoso. Talvez nossos avós não estivessem errados ao se preocupar tanto com as más companhias. A teoria também tem uma conseqüência aterradora: de que a educação teria pouquíssimo efeito sobre os filhos. Eles não se tornam o que os pais querem que sejam ? mas o que os amigos querem. Se é assim, então como educar os filhos?

O estilo de educação importa?

Pouco. Traços de personalidade dependem de diversos fatores e são dificilmente previsíveis. Por isso, estudantes de um colégio militar não se tornam necessariamente adultos metódicos, e os de um colégio liberal não ficam mais criativos. Também não há comprovação científica de que impor limites rígidos previne que o filho seja um adolescente infrator.

Dizer que o estilo de educação importa pouco na personalidade deve fazer psicopedagogos e professores estremecer. Mas a afirmação pelo menos livra os pais de tanta culpa e responsabilidade pelo destino dos filhos. Notícias de adolescentes de classe média que ateiam fogo a mendigos ou espancam empregadas costumam ver acompanhadas de críticas ao pais. A idéia por trás dessa opinião é que os pais são responsáveis pela personalidade e por todos os atos dos descendentes.

Os primeiros estudiosos a culpar os pais pela educação dos filhos foram os psicólogos behavioristas. Eles adaptaram as idéias de Freud sobre o papel dos pais e criaram sistemas de educação baseados em estímulos e respostas. O psicólogo John Watson, famoso no começo do século 20, chegou a dizer que conseguiria fazer de qualquer criança um médico ou artista de sucesso se pudesse aplicar na ?cobaia? um sistema contínuo de estímulos e respostas. De pensadores como Watson, veio a idéia, comum hoje em dia, de que uma personalidade bem formada é resultado de uma educação de recompensas e punições.

Essa idéia embala centenas de livros com fórmulas mágicas para transformar crianças em adultos simpáticos, bonitos, bem-sucedidos e livres das drogas. E resulta em pais que se sentem despreparados para criar filhos bem formados. Mas não é preciso ser perfeito para ter filhos, sobretudo porque, como você viu acima, os pais não determinam o destino das crianças e a influência deles é imprevisível. Muitos dos adolescentes que engravidam cedo, se afundam em drogas ou espancam empregadas receberam a mesma educação de jovens que andam na linha ? às vezes, os próprios irmãos. Casos assim mostram que seres humanos não são robôs que podem ser programados pelos pais ou por pedagogos.

É importante, porém, não confundir pouca influên­cia com nenhuma influência. ?Muitos pais hoje em dia acham que devem agir como amigos. Mas a autoridade e a hierarquia precisa existir, para que se transmita o que é certo ou errado?, diz Eloísa Lacerda, da PUC-SP. Também é bom que os pais fiquem atentos ao relacionamento do filho com os amigos ? se ele for sempre a vítima do grupo, sempre humilhado pelos colegas, talvez seja o caso de trocar de escola ou incentivá-lo a se relacionar com outras crianças. ?Ao morar num bairro e não em outro, os pais podem aumentar ou diminuir o risco de que os filhos venham a cometer crimes, sejam expulsos da escola, usem drogas ou engravidem?, afirma Judith Harris em Diga-me com Quem Anda…

Por que os irmãos são tão diferentes?

Ninguém sabe exatamente. As irmãs siamesas Ladan e Laleh, do começo desta reportagem, são um exemplo de que nem o ambiente nem a biologia conseguem explicar completamente a personalidade. O caso delas mostra que o lar é um fator importante para fazer irmãos se diferenciar entre si. Uma pesquisa da Universidade de Minnesota descobriu que gêmeos idênticos são mais parecidos quando criados em ambientes separados. Você já deve ter ouvido histórias de gêmeos separados no nascimento que se reencontram 40 anos depois e descobrem que ambos compraram carros azuis, adoram feijoada e jogam xadrez muito bem. Longe um do outro, eles seguiram iguais.

Muita gente explica a personalidade de alguém pela ordem de nascimento ou pela diferença de idade entre os irmãos. O senso comum diz que os primôgenitos são mais independentes; os do meio, rebeldes; os temporões, precoces. O historiador Frank Sulloway, da Universidade da Califórnia, tem estudos nessa linha. Ele analisou a ordem de nascimento de mais de 6 mil personalidades mundiais e concluiu que os filhos mais velhos são mais conservadores, já os mais novos são os criativos e revolucionários ? é 18 vezes mais fácil achar um revolucionário caçula que um primogênito.

A pesquisa de Sulloway mostra só um padrão de comportamento (ele não propõe uma lei da natureza), mas contribui para o que se chama de Teoria dos Nichos, tese mais aceita para explicar a diferença entre irmãos. Em casa, a criança procura desempenhar um papel diferente dos irmãos mais velhos. Se um irmão se destaca como esportista, ela pode se apegar mais aos livros. Se um é mais apegado à mãe, a filha do meio pode ser mais independente.

Steven Pinker, psicólogo evolucionista e professor da Universidade Harvard, acredita que a variação de personalidade se resume numa palavra: acaso. ?Falo de acasos como um bebê que cai de cabeça no chão sem querer, um vírus que ele pega, um pensamento que deixe uma impressão permanente. Esses fatores podem ter uma influência tão grande no que somos quanto os genes, uma influência muito maior do que os pais?, afirma ele no livro Tábula Rasa.

É possível mudar nosso jeito de ser?

Sim. Na verdade, mudamos nossa personalidade a toda hora. Agimos de modos diferentes com pessoas de idade, sexo ou posição social diferentes. Você já deve ter passado pela sensação de ser amigável e inteligente com alguém que o deixa confortável e agir do modo contrário com quem o desafia. Além disso, a nossa personalidade depende do que os outros acham: você pode ser chato para uma pessoa, mas gente boa ou confiável para quem o conhece melhor. ?O homem tem tantos eus quantos são os indivíduos que o reconhecem?, disse em 1890 o psicólogo William James, um dos primeiros a estudar a personalidade.

Mas é claro que há comportamentos e atitudes que são muito difíceis de largar. Somente 10% das pessoas com pontes de safena mudam hábitos alimentares e deixam o sedentarismo. As outras acabam morrendo de ataque cardía­co simplesmente porque não conseguem mudar. Muitas vezes um pai que bate na mulher e nos filhos promete a si mesmo parar com as agressões, mas não consegue. Talvez os genes favoreçam o comportamento impulsivo ? e não é nada fácil ir contra a própria composição genética. Ou então, olhando pelo lado da psicologia, somos tão arraigados à referência dos nossos pais e às experiências da infância que esses traços viram nossa identidade. Se é assim, fica difícil até perceber o próprio modo de ser.

Mesmo assim, dá para mudar. ?Não existe nenhuma pesquisa científica que mostre que o ser humano não tem jeito?, diz Mariângela Gentil Savoia, psicóloga do Hospital das Clínicas de São Paulo. De ter consciência de si próprio, um traço bem arraigado à personalidade, atribuir a ele uma causa, vencer derrotismos e apegos, vão anos, se não uma vida toda. Mas talvez o caminho de nos conhecer, mudar o que for possível e nos contentar com o que somos seja o grande desafio da vida.

O gordinho engraçado

Este tipo comum é um bom exemplo da teoria da americana Judith Harris, para quem a relação entre os iguais é o fator que mais influencia a personalidade. Entre os vizinhos e os amigos da escola, a criança busca um jeito de receber atenção e ganhar destaque. Se não é o mais bonito ou o mais forte do grupo, conquista o carinho de todos de outro jeito: contando piadas.

A bonita e burra

A moça que nasce mais bonita que a média pode ter mais carinho dos pais (que tratam, sim, cada filho de forma diferente) e ser facilmente aceita entre os amigos. Mas essa herança pode ter um lado ruim: atraindo a atenção pela beleza, ela talvez não desenvolva artimanhas para se destacar, correndo o risco de ficar vazia e desinteressante.

Tímido e inteligente

Por que algumas pessoas são abertas e sociáveis enquanto outras são quietas e tímidas? Uma explicação é o jeito com que nossos pais nos ensinam os sentimentos. O rapaz inteligente e introvertido pode ter aprendido com o pai a ser frio e distante.

Gêmeas e diferentes

Gêmeos idênticos têm exatamente o mesmo DNA e foram educados de forma parecida. Então por que são tão diferentes? A explicação mais aceita é a Teoria dos Nichos: disputando a atenção dos pais, os irmãos adotam papéis diversos. Um serve de referência do contrário para o outro.

O médico altruísta

Para a psicanálise tradicional, tentamos repetir na vida adulta as experiências da infância. Imagine um garoto que nasceu pouco antes de o pai morrer e que, por isso, foi admirado como uma compensação pela mãe e pelos avós. Ao escolher a profissão, ele pode ter gostado da idéia de ser admirado ? como um médico que faz tudo pelos pacientes.

Para saber mais

Tábula Rasa

Steven Pinker, Companhia das Letras, 2004.

Diga-me com Quem Anda…

Judith Rich Harris, Objetiva, 1998.

Não Há Dois Iguais

Judith Rich Harris, Globo, 2007.

Teorias da Personalidade

Howard S. Friedman e Miriam W. Schustack, Prentice-Hall, 2004.

Estudantes de PE criam óculos inteligentes para deficientes

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Ir sozinho à padaria, ao banco ou simplesmente andar na rua. Ações simples como essas são um verdadeiro desafio para deficientes visuais e podem causar graves acidentes.

Mas, se depender do pernambucano Marcos Antonio Oliveira, essas pessoas vão ganhar em breve um grande aliado para ter mais mobilidade com segurança.

Estudante de Ciência da Computação, Oliveira faz parte do WearIT, grupo de pesquisa do Recife que desenvolve o PAW (Projeto AnnuitWalk), óculos que detectam eventuais obstáculos no caminho e avisam o usuário.

O acessório ainda pode interagir com um aplicativo de celular, que mapeia objetos presentes nos trajetos e funciona como uma espécie de GPS para os deficientes visuais, indicando as direções com os menores riscos de acidentes.

A ideia é dar mais mobilidade e qualidade de vida aos 6,5 milhões de deficientes visuais que vivem no Brasil. Segundo o Censo 2010 do IBGE, 92% das cidades brasileiras são inacessíveis para cegos e nenhum município brasileiro tem todas as vias públicas adequadas para eles.

Já no mundo, existem mais de 314 milhões de cegos ou pessoas com algum grau de deficiência visual, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde.

Criamos um dispositivo que protege o corpo inteiro do usuário”, conta o pernambucano. Desde março de 2014, o grupo formado por ele e mais cinco universitários pesquisam como os chamados wearable devices (ou “dispositivos vestíveis”) — como os óculos inteligentes Google Glass ou o relógio Apple Watch — podem melhorar a vida de pessoas com algum tipo de deficiência ou com deficiências múltiplas.

A cada protótipo testado por voluntários, entendíamos melhor suas necessidades”, explica a estudante de Psicologia, Emily Schuler, também integrante da equipe. “Por exemplo: eles não queriam algo que substituísse a bengala, mas que desse um suporte a ela. E este suporte não devia ser algo discreto, pois eles já chamam muita atenção com a bengala. Os óculos também se tornaram a opção mais viável, já que a maioria está acostumada com o acessório.”

Ao todo, foram feitos seis protótipos até chegar à versão final, que ainda tem um diferencial: em vez de avisar os obstáculos por voz, como a maior parte dos dispositivos para deficientes visuais, a tecnologia utiliza uma pulseira vibratória, que emitem vibrações de intensidades diferentes de acordo com a distância dos obstáculos — quanto mais longe, mais suaves, e quanto mais perto, mais intensas.

Sabemos que os cegos também usam a audição para se movimentar, então pensamos em algo que não os atrapalhassem. Também não queríamos restringir nosso público. Pessoas com deficiências múltiplas vão podem usar o AnnuitWalk”, explica a estudante.

O dispositivo utiliza sensores ultrassônicos que identificam os obstáculos à frente do usuário cego, que por sua vez, é avisado instantaneamente com vibrações emitidas pela pulseira. Marcos explica:

Usamos um sistema de localização parecido com a utilizada pelos morcegos. Eles vão emitindo sinais sonoros que não são percebidos pelo ouvido humano e, ao encontrarem algum obstáculo, estes sinais voltam, e é possível calcular a distância dos objetos.”

Tecnologia acessível

A grande sacada do projeto, no entanto, não é seu sistema — mas sim o custo. Segundo Marcos, já existem projetos similares no mercado, mas são extremamente caros. “São tecnologias que custam entre R$ 3 mil e R$ 4 mil.”

Um cão-guia é ainda mais inacessível: ele custa cerca de R$ 25 mil e, é claro, tem vida útil e gastos como de qualquer outro animal. “Nas pesquisas de campo descobrimos que a maioria da população cega é de baixa renda, o que torna impossível ter opções mais vantajosas do que uma bengala.”

Já o dispositivo criado pelos recifenses é bem barato. Eles criaram protótipos com diferentes preços: o mais simples, com função básica de avisar obstáculos e que custa cerca de R$ 45, e o protótipo mais completo, que interage com o aplicativo AnnuikWalk no celular, que faz recomendações com a rota mais segura e pontos críticos de trajeto. Esta versão tem um custo de produção inicial de R$ 160.

Os preços ao consumidor não seriam muito diferentes dos nossos custos, ainda mais se tivermos uma produção escalável.”

O aplicativo gratuito, que estará disponível para Android e iOS em breve, poderá ser usado por qualquer um. “Criamos o app para que todos pudessem colaborar, não só quem tem a deficiência.

Por meio dele, qualquer um pode reportar obstáculos nas ruas e ajudar a criar trajetos mais seguros”, diz Emily, integrante do grupo.

Tirando a ideia do papel

Marcos conta que o projeto foi criado apenas com objetivo acadêmico. Eles não pensavam em abrir uma startup ou levar esse projeto ao consumidor final.

Era apenas para fins acadêmicos. Mas, ao passo que os testes eram realizados com voluntários e o projeto dava certo, os planos do grupo começaram a mudar.

Nossos voluntários se sentiam cada vez mais animados com a possibilidade de ter um suporte como aquele. Isso foi nos contagiando. Sabíamos que se deixássemos apenas na academia, talvez nunca sairia do papel. Então, começamos a focar no negócio, em como tornar esta ideia viável.”

Desde então, os estudantes buscam investidores interessados em bancar o projeto. Para isso, eles compareceram na Campus Party Recife do ano passado, onde fez algumas parcerias, e nesta semana, o projeto venceu a sétima edição do Word Summit Youth Award, premiação chancelada pela ONU para incentivar jovens a criarem conteúdo digital de algum impacto social. Concorreram mais de 18 projetos de todo o mundo.

“Queremos divulgar nossa ideia para ela chegar o quanto antes às lojas. Se tudo der certo, é possível comercializar os óculos até o final deste ano”, prevê o pernambucano.

Toda a equipe trabalhou muito para este momento e estamos muito orgulhosos com nossas conquistas. Agora é tornar realidade nosso sonho e transformar a vida das pessoas.”