Condição neurológica deixa britânico incapaz de criar imagens na mente

Niel Kenmuir, que sofre de ‘afantasia’ desde a infância, não consegue visualizar memórias ou recriar cenas na cabeça.

Feche os olhos e se imagine andando em uma praia e, em seguida, olhando para o horizonte enquanto o Sol nasce. Qual é o nível de clareza desta imagem?

A maioria das pessoas consegue criar imagens na mente. Mas, em 2015 cientistas descreveram uma condição neurológica, batizada de afantasia, vivida por pessoas que não conseguem visualizar imagens mentais.

O britânico Niel Kenmuir, por exemplo, sofre dessa condição pelo menos desde a infância.

“Quando eu não conseguia dormir, meu padrasto me falava para contar carneirinhos e ele explicou o que significava”, conta ele à BBC. “Tentei fazer isso e não consegui. Eu não conseguia ver nenhum carneiro pulando sobre as cercas, não havia nada para contar.”

Nossas memórias são frequentemente ligadas a imagens. Bons exemplos são lembranças de um casamento ou o primeiro dia de escola.

Neil conta que não tem problemas em recordar fatos, mas que aspectos de sua memória são “péssimos”. E que, por causa da condição, ele luta para reconhecer rostos.

No entanto, ele não vê a afantasia como uma deficiência, mas como uma forma diferente de viver a vida.

Cegueira
Por ironia, Niel trabalha em uma livraria e permanece principalmente no setor de não-ficção.

Mas o que se passa em sua mente, se não há imagens? A reportagem da BBC perguntou a Niel o que acontece quando ele tenta formar a imagem do rosto da noiva.

“Esta é a coisa mais difícil de descrever, o que acontece na minha cabeça quando penso sobre as coisas”, respondeu.

“Quando penso sobre minha noiva, não há imagem, mas, definitivamente, estou pensando nela, sei que hoje ela tem cabelo comprido, é morena. Mas não estou descrevendo uma imagem que estou vendo, estou lembrando características sobre ela, é uma coisa muita estranha e talvez seja causa de um certo pesar”, acrescentou.

Os amigos veem Neil como “esquisito”.

Mas nem todos tem uma abordagem tão tranquila em relação à afantasia. Outra pessoa, não identificada, que participou de um estudo sobre o problema, afirmou que começou a se sentir “isolada” e “solitária” depois de descobrir que outras pessoas podiam ver imagens em suas mentes.

E o fato de não conseguir lembrar da própria mãe anos depois da morte dela fez com que essa pessoa ficasse “extremamente desamparada”.

Supervisualizadores

No outros extremo, no das pessoas com capacidade bastante apurada de criar imagens na mente, está a ilustradora britânica de livros infantis Lauren Beard, de Manchester, no norte da Inglaterra.

A carreira de Lauren depende das imagens vivas que aparecem na sua mente quando ela lê o texto do autor para o qual precisa criar os desenhos.

Quando concedeu entrevista à BBC, ela trabalhava em uma cena dramática de um livro. O texto descrevia uma cena perigosa, um bebê se pendurando em um lustre.

“Imediatamente posso visualizar este grandioso lustre em uma espécie de salão de baile no estilo francês, e um bebezinho balançando e cortinas muito pesadas e grossas”, disse.

“Acho que tenho uma imaginação forte, então posso criar o mundo e então continuar adicionando coisas para ficar maior e maior dentro de minha mente, e os personagens também meio que evoluem.”

“Eu não poderia mesmo imaginar o que é não imaginar, acho que deve ser muito triste”, acrescentou.

Opostos
Não são muitas pessoas que têm imagens mentais tão vibrantes como as de Lauren ou inexistentes como Niel. Eles estão nos dois extremos.

Adam Zeman, professor de neurologia cognitiva e comportamental, quer comparar as vidas e experiências de pessoas com afantasia e de outras que estejam no outro extremo, com a condição conhecida como hiperfantasia.

Foram Zeman e sua equipe, da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha, registraram o termo afantasia em 2015 em um estudo publicado na revista especializada Cortex.

“Pessoas entraram em contato e disseram que estão muito satisfeitas que isto tenha sido reconhecido e tenha ganhado um nome, pois elas tentavam explicar há anos que existe esta singularidade que elas tinham dificuldade de explicar para os outros”, disse o pesquisador.

O modo como as pessoas imaginam cenas é muito subjetivo: uma imagem vibrante na mente de uma pessoa pode ser uma cena desfocada e apagada para outra.

Mas, para Zeman, apesar das diferenças, a afantasia é algo real. As pessoas, com frequência, contam que são capazes de sonhar com imagens e também há casos de pessoas perdendo a habilidade de pensar em imagens depois de alguma lesão cerebral.

No entanto, o professor afirma que a afantasia “não é uma doença” e acrescenta que pode afetar até uma em cada 50 pessoas.

“Acho que faz uma diferença importante para a experiência (das pessoas com afantasia) pois muitos de nós passam a vida com imagens pairando em algum lugar de nossas mentes, que checamos de vez em quando, é uma variação da experiência humana”, disse.

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