‘Affluenza’: a suposta doença que afetaria a filhos de famílias ricas

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Mal seria consequência da má-criação de jovens por famílias de classe alta; muitos especialistas, entretanto, negam sua existência

O jovem americano Ethan Couch, de 18 anos, que ficou conhecido em 2013 por supostamente ter uma “doença que só afeta ricos”, acaba de ser preso no nordeste do México, na região de Puerto Vallarta.

A polícia mexicana o deteve junto à mãe, Tonya Couch, de 48 anos, e os entregou a autoridades dos Estados Unidos. A informação foi dada à imprensa local pelo xerife Dee Anderson, do condado de Tarrant, no Texas.

Couch era procurado pela polícia por infração da liberdade condicional. Em 2013, ele atropelou e matou quatro pessoas, ferindo outras nove — a porcentagem de álcool em seu sangue era três vezes superior ao limite que define embriaguez no Texas.

A juíza Jean Boyd aceitou como atenuante da pena o argumento principal da defesa: o jovem (então com 16 anos) sofreria de affluenza, uma suposta “doença dos meninos abastados”.

À época, ele foi julgado como culpado por homicídio culposo (sem intenção), por intoxicação, e sentenciado a 10 anos em liberdade condicional e reabilitação.

Mas, afinal, que “doença” é esta?

Sem limites
Quem reforçou o argumento da defesa foi o psicólogo Dick Miller, que testemunhou a favor de Couch.

Segundo ele, o acusado, membro de uma das famílias mais ricas do Estado, seria vítima de pais irresponsáveis, que praticamente o teriam abandonado, sem regras, limites ou castigos.

Citou como exemplo o passado de problemas com a lei do adolescente: meses antes, a polícia o havia encontrado com uma adolescente seminua e inconsciente. Ele não foi julgado por isso, tampouco teria sido repreendido pela família.

O histórico, nas palavras do psicólogo durante o julgamento, mostraria que Couch sofreria de affluenza, uma condição pela qual não seria capaz de medir nem entender as consequências de seus atos.

A suposta doença, entretanto, não é reconhecida pela Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos, nem por nenhum outro órgão oficial.

Também nunca foi citada pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM, em inglês), uma das “bíblias” de psicólogos e psiquiatras.

Muitos especialistas, entretanto, defendem sua existência, e citam a suposta enfermidade como um fenômeno social.

Neologismo
O primeiro registro da palavra affluenza é de 1954. O termo é um neologismo que nasce da combinação em inglês de influenza (gripe) e affluence (riqueza).

Em 1997, o tema foi abordado em livros como “The Golden Ghetto: The Psychology of Affluence” (“O gueto de ouro: a psicologia da riqueza”, em tradução livre), escrito por Jessie O’Neil, psicóloga e bisneta do ex-presidente da General Motors, Charles Erwin Wilson.

Segundo estes especialistas, a affluenza seria a versão contemporânea do “ennui” (tédio, em francês), uma enfermidade psicológica sofrida por meninos ricos da era vitoriana por ter demasiado tempo livre e nenhuma profissão.

Quem defende a existência da suposta doença diz que este vazio seria preenchido atualmente pelo abuso de drogas ilícitas, sexo e álcool.

Para eles, a affluenza seria consequência da má-criação de jovens em famílias de classe alta, fruto da falta de responsabilidade e repreensões.

A existência da doença, no entanto, continua sendo negada por boa parte da comunidade médica.

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