Pianista italiano recupera músicas compostas em campos de concentração

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Em Auschwitz, músicos judeus eram obrigados a tocar para compassar a marcha dos prisioneiros rumo aos campos de trabalho forçado.

Mais de 70 anos após ter ouvido uma canção inventada por um jovem polonês pouco antes de ser exterminado em uma câmara de gás, o sobrevivente do campo de concentração nazista em Auschwitz e produtor de filmes americanos Jack Garfein finalmente encontrou com quem compartilhar e como homenagear à altura a cantiga que lhe havia ficado gravada na sua memória desde os 13 anos de idade.

Em uma viagem à Itália no ano passado, Garfein conheceu o pianista italiano Francesco Lotoro, que havia recuperado músicas compostas por prisioneiros em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

“Foi um encontro emocionante, pois, até então, ele não tinha tido coragem de cantá-la para ninguém. Na verdade, é uma singela canção em yiddish, mas pela história que ela carrega, deveria ser ensinada como um hino contra a barbárie racista”, diz o maestro Francesco Lotoro à BBC Brasil.

Há quase 30 anos, ele viaja o mundo em busca de sobreviventes do Holocausto ou de seus familiares, decifrando notas musicais escritas em milhares de manuscritos, em partituras e folhas despedaçadas e até rabiscos em papel higiênico ou em sacos de carvão.

“Grande parte dessas composições foram criadas por judeus, mas há também músicas feitas por presos políticos, comunistas, homossexuais, ciganos, religiosos e alcoólatras”, conta.

“Não sou um colecionador. Minha missão é fazer com que essas obras voltem à vida, que sejam ensinadas, tocadas, cantadas e assobiadas por todos. Assim, perpetuamos a vida onde havia morte”, diz o professor de música, que auto-financia as próprias pesquisas.

Ao longo de sua carreira, Lotoro catalogou cerca de 1,6 mil compositores e transcreveu mais de 5 mil obras musicais, 500 das quais estão completas. O acervo conservado em sua casa na pequena cidade de Barletta, no sul da Itália, reúne óperas, operetas, música sinfônica, lírica, jazz, até canções populares, cantigas e paródias.

Vida nos campos de extermínio
Em alguns campos de concentração nazistas, como em Auschwitz, a música desempenhava um papel de exaltação do horror e de destruição da dignidade humana.

Além de entreterem os oficiais do regime, as orquestras formadas por judeus eram obrigadas a tocar continuamente, dando o ritmo à marcha dos prisioneiros rumo aos campos de trabalho forçado.

“Mesmo diante da perspectiva da morte, a criatividade dos artistas sobrevivia. Além de criarem novos arranjos para obras de compositores famosos, muitos músicos compuseram melodias originais, e várias delas chegaram até nós”, diz.

A maioria das composições foram, porém, criadas clandestinamente, como um ato de resistência, como no caso do compositor Rudolf Karel, que, em 1943, foi detido na prisão de Pankràc, na antiga Tchecoslováquia, onde criou várias óperas complexas.

Entre elas, estava um “noneto”, uma sinfonia para nove instrumentos, com notas musicais escritas com carvão em centenas de folhas de papel higiênico. Karel morreu na prisão, mas suas composições foram salvas graças à conivência de um soldado.

Também para o violinista polonês Josef Kropinski, compôr músicas diante da situação de desespero tornara-se uma exigência vital. Kropinski foi provavelmente o mais profícuo de todos os músicos presos durante o nazismo, tendo composto mais de 440 obras durante sua permanência no campo de concentração de Buchenwal, na Alemanha.

“Ele escrevia principalmente de noite, à luz de velas, na sala onde eram dissecados os cadáveres dos prisioneiros mortos por estrangulamento e onde ele sabia que os soldados não entrariam”, conta o maestro.

Kropinski compôs músicas para coro, piano, grandes orquestras, ópera e opereta. Quando o campo de concentração foi abandonado pelos nazistas, o compositor deixou para trás parte de sua obra e, durante a viagem de retorno à sua cidade natal, queimou diversas partituras para se aquecer. Ainda assim, 111 obras do autor sobreviveram e estão catalogadas no arquivo de Lotoro.

Sobreviventes brasileiros
Além de realizar apresentações de música “de campos de concentração” em diversas cidades pelo mundo como Roma, Estrasburgo, Praga, Nova York, Atlanta, entre outras, Lotoro está preparando um filme com o diretor argentino Alexandre Valenti, que deverá ser lançado em abril deste ano.

As gravações foram feitas em 16 países, entre eles o Brasil, onde, em agosto de 2015, Lotoro encontrou-se com Bela Lustman, uma polonesa de 85 anos sobrevivente do Holocausto e residente no Rio de Janeiro.

Aos 14 anos, quando era prisioneira do campo de trabalhos forçados de Pachnik, na antiga Tchecoslováquia, ela e duas amigas compuseram uma canção sobre as cruéis condições de vida às quais eram submetidas pelos nazistas por serem judias.

Outro polonês naturalizado brasileiro a integrar a lista de canções do maestro é Aleksander Laks, morto em julho do ano passado, aos 88 anos. Embora tenha falecido poucas semanas antes da visita do maestro italiano, Laks já havia registrado suas memórias musicais com os produtores do documentário.

Recentemente foi lançada uma campanha internacional para recuperar mais de 10 mil músicas compostas em campos de concentração que, segundo estimativas de estudiosos, continuam desconhecidas.

“Espero conseguir em breve uma sede adequada, onde qualquer pessoa possa acessar, conhecer, reproduzir e manter vivo este rico tesouro cultural”, disse Lotoro.

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