A comunidade de idosas que vive em uma área de exclusão em Chernobyl

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Moradores foram evacuados após um dos maiores acidentes nucleares da história, mas cerca de cem mulheres ainda habitam o local.

Quando a diretora de cinema Holly Morris foi filmar em Chernobyl, na Ucrânia, cenário de um dos maiores acidentes nucleares da história, encontrou “uma zona de exclusão de cerca de 2.500 quilômetros quadrados, cercada por seguranças e com permanente controle de radiação”.

Em 1986, uma usina nuclear explodiu em Chernobyl, lançando uma enorme quantidade de radiação na atmosfera.

Mesmo três décadas depois do acidente, Morris só podia permanecer no local das 9h às 17h. Era examinada todos os dias devido à possibilidade de contaminação e acompanhada todo o tempo por um guia que carregava um aparelho para medir radiação.

Toda essa precaução não impede, no entanto, que um grupo de mulheres idosas viva no local. E são justamente essas moradoras o tema do documentário The Babuskas of Chernobyl, de Morris.

A primeira pessoa que a diretora conheceu na região foi Hanna Zavorotyna. Ela sobreviveu à fome sob o regime de Josef Stalin, nos anos 1930, e aos nazistas. “Nos anos 1980, ela não ia sair (de onde vive) por causa de um inimigo invisível”, diz Morris.

Zavorotyna conta que, após o acidente, foi levada para outra cidade.

“Foi muito difícil. Alguns de nós tiveram pedidos por água negados, porque as pessoas tinham medo. Elas achavam que a gente trazia radiação”, lembra Maria Shovkuta, que também mora no local.

Milhares de pessoas foram evacuadas da região em um primeiro momento, mas aos poucos elas foram voltando.

Segundo Morris, 1.200 voltaram para suas casas, mas algumas foram retiradas novamente pelas autoridades.

“Hannah contou que se escondeu nos arbustos para poder voltar; outras pessoas disseram que passaram pelos soldados e falaram ‘Atira em mim e cave a cova se não quiser que eu fique'”, conta Morris.

“Chegou uma hora que os oficiais desistiram. Eles disseram: ‘Eles vão morrer, mas vamos deixar que morram felizes, que morram em suas casas'”, explica.

Para a diretora, eles entenderam que o trauma da realocação também afeta a saúde das pessoas.

“Algumas haviam sido colocadas na periferia de Kiev, separadas de tudo que conheciam. Eles eram camponeses, com uma ligação com a terra. Pessoas realocadas sofrem de alcoolismo, depressão, desemprego. É uma equação complicada”, diz.

“Uma das mulheres me disse: ‘Quando fui realocada, o sol se punha no lugar errado. Isso era horrível – então eu vim para casa’.”

Vida
De acordo com a diretora, essa comunidade de idosas em Chernobyl tem cerca de cem mulheres – os maridos morreram com o passar dos anos.

“A zona de exclusão não é uma prisão. Em Kiev eu teria morrido há muito tempo. O ar lá é muito pior”, diz Valentyna Ivanivna.

“Aqui a vida nunca parou, a natureza assumiu (o controle). Tudo está como antes. Não vou a lugar nenhum, nem com uma arma na cabeça.”

Segundo Morris, as condições de vida dessas pessoas são difíceis.

Muitas ficam isoladas e vivem da agricultura de subsistência.

Algumas dependem de parentes que moram fora da zona de exclusão e outras fazem pequenas trocas com pessoas que trabalham na região (em obras ou na manutenção do isolamento).

Sobre os riscos à saúde, a diretora diz que muitas mulheres relataram ter câncer de tireoide, mas não há um acompanhamento permanente da saúde dessas pessoas que permita afirmar, com segurança, quais os efeitos da radiação sobre elas.

Ela acrescenta que, segundo foi informada, a maioria dos moradores da região morre de derrame cerebral – o que a princípio não teria relação com a radiação.

“Achei que esse seria um filme sobre Chernobyl e radiação e, para minha surpresa, virou um filme sobre (a importância do) lar”, diz a diretora.

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